Acorda Alice

By Gilka

Eu já sonhei em ser escritora. Queria publicar um livro, ficar famosa, dar entrevista no Jô. Até comecei a escrever um blog. Eu Marta Medeiros. Lembrava do Paulo Coelho – e eu já me sentia internacional. Entretanto nunca li um livro por semana, por mês, por ano, que fosse.

Depois eu quis fazer direito. Era uma ótima escolha. Pensei na federal, mas precisava de um ano de cursinho. A católica era muito cara. A luterana? Já estava falindo.

Almejei passar no concurso do Bando do Brasil. Ter uma graninha garantida e aposentadoria. Te puxa, mulher! E eu sequer comprei as apostilas. Foi quando descobri um planejamento mais estratégico: conseguir um cê-cê na prefeitura. Era só arrumar um quê-í.

Não tinha quê-í. Então eu resolvi fugir para o exterior. A Austrália estava na moda. Mas o book continuava na mesa and – has never been on the table! Até hoje não sei se é in, on ou at the table.

O que quer que seja, ou não funciona ou eu mudo de idéia antes. Ainda me lembro quando quis conquistar aquele gatinho que só tinha rendido umas ficadas inesquecíveis. Aquele das quais as outras eram todas malhadíssimas e não fumantes. Tentei uma daquelas dietas que se começa na segunda-feira. Só nos vegetais. A qual acabou na primeira sexta à meia-noite, com a abóbora virando um bauru da lancheria em meio a um laricão.

Falando em cigarro. Ai, ai, ai! Isto sempre foi plano vitalício. Acho nem cabe em uma existência só. Pastilhinha, chicletinho, emplastro, passei pro light, tô cortando, desisti. Fica para a próxima encarnação.

Esta angústia sempre me estrangulou. Tantos planos, tantas ideias que nunca saíram do chão. Será a insolvência fruto de vagabundagem? Moleza? Falta de recursos? Inferioridade? Megalomania? Suponho que seja medo. (Tirando o cigarro, é claro.) Somente medo. De gostar do que eu realmente gosto e achar o foco. Medo de não ter vergonha. De fazer alguma coisa única. Algo que combine comigo.

Medo que vem de brinde no mesmo pacote onde diz que deveríamos ser assim ou assado. Ou para não ser assim e não ser assado. Ser quase nada. Como alguém tentando torcer o pescoço para ler as instruções na parte de trás da própria embalagem.

Falando em invólucro, lembro da Vivienne Westwood, com quem divido a mesma opinião: temos que fazer somente aquilo que gostamos com total envolvimento. Segundo ela, ninguém vira estilista lendo revista de moda. Assim como eu nunca vou virar eu mesma enquanto não parar de seguir o coelho. (Não estou falando do Paulo, porra. É aquele coelho mesmo, Alice!)

 

Alice - A FREE Friday Download
Alice by Mary Bailey on Flickr

4 Responses

  • Amei… me vi no seu texto! Beijos!

  • Ai, nós, os procrastinadores! Sempre fica tudo pra amanhã…
    Medo? É uma boa hipótese. Mas, no meu caso, também tem uma incapacidade completa de ver além do agora. E, no agora, às vezes dá uma preguiça…

  • Hum… Tu tens razão. O agora é sempre meio turvo. Só o tempo decanta o complexo e faz tudo ficar em ordem.

  • Muito interessante o texto! A gente precisa fazer lista, tópicos, ir atrás da gente mesmo! Michelanlego disse: “Deus criou o homen e o universo inteiro para ele, mas assim mesmo, Deus tem que obrigar o homem e agir nesse mundo” (IN: Agonia e Extase-filme). Acho que é por aí, precisamos no obrigar. Porque a vida nos engole e se a gente não se liga, se perde no meio do caminho.

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