Algum veneno

Cantou Cazuza a tarde inteira. Eu quero a sorte de um amor tranquilo. Sem essa de amor bandido, cheirando a cigarro e cerveja, amor brega rimando com dor, um olho no copo e outro no celular, esperando a ligação que não se sabe se vem. Queria assim, um amor novinho em folha, lençol com cheiro de amaciante, sorvete no sol de sábado à tarde. Nós na batida, no embalo da rede.

À noite, com amigas, sem perspectivas, toca colocar a conversa em dia. Falar, falar, falar, como só mulher sabe fazer, duas-semanas-que-não-vejo-ele, eu-não-aguento-mais-o-trabalho, quero-dar-um-tempo-para-mim, confesso-que-nunca-pensei. Papos de quinta. O inferno e céu de todo dia.

Ele entrou no bar quando a noite já tinha passado da metade. Fazia uns dez anos, ainda na faculdade, um amigo em comum, algumas conversas, nada além. Na época, uma vontade sem forma nem relevo, só de passagem. Engraçado como o acaso pode ser, ela pensou.

Algum-venenoConversa vai-e-vem, o acaso começou a parecer coincidência, coincidência virou identificação. Os joelhos dele começaram a brincar de bate-e-volta com os dela, embaixo da mesa, quase intimidade. Tranformar o tédio em melodia. Mas a mesa do bar abrigava gente demais para qualquer canção.

Em casa, a vontade não satisfeita. Benditos tempos conectados: a internet estava ali para um empurrãozinho. Preparada para buscar, encontrou as palavras dele chamando para o sábado chuvoso. Ah, vou achar tua fonte escondida.

Dois toques no telefone, melhor não insistir. Uma mensagem mal entendida. Enganos e desencontros depois, firmada a noite, confirmado o bar, lá estavam. O acaso, no entanto, foi passear: mais chamadas não atendidas, mais mensagens truncadas. Os joelhos continuavam de-lá-para-cá. Ser artista no nosso convívio, tentou não esquecer. Pausas, toques, olhos, palavras, tudo estava em seu lugar, mas nada saiu do talvez.

Nessa noite chegou primeiro à rede: um recado apenas. Na insônia de quem busca, computador, sofá, televisão, cama, teclado, geladeira, televisão, sofá, colchão, horas que relógio nenhum dava conta enquanto uma resposta não vinha. A poesia que a gente não vive. Só um recado, uma lembrança, uma isca. Que ele levou toda a eternidade para morder: no dia seguinte.

Na terceira noite, enfim, a paciência perdida levou junto a sutileza; a conversa empurrada, dos joelhos para os braços, braços para mãos, mãos para bocas, o bate-e-volta voltou mais rápido, o vai-e-vem veio enfim. Boca, nuca, mão. Encontrou por fim uma réplica já quase surpresa depois de tanta espera: lento, ele contou de seu próprio desejo, também represado, também de outros tempos, tão parecido com o dela.

As primeiras nuvens do dia marcaram o tom da segunda-feira. Saiu da cama, vagarosa buscou as roupas no chão. Preciso de uma farmácia, preciso agora, desculpou-se desatenta. Não, remédio não, só veneno. Antimonotonia: só canção.

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