Bebês aos borbotões

Vem o Zé e me diz: “Ficar com mulher na faixa dos 30 é complicado… parece que todas vocês estão loucas pra parir!”. É, foi assim mesmo, a seco, que meu doce amigo tocou no assunto, tão complicado para a maior parte de nós, mulheres de 30 (e poucos).

Vou dizer o quê? Mentira não é. Até uns dois anos atrás, só uma entre as amigas próximas tinha filhos. Agora a gente espirra e surge um barrigão pela frente. A temporada de chás de fraldas já superou a de casamentos e formaturas (ah, bons tempos em que as formaturas faziam a agenda da estação!). Entre quem não tem prole, o assunto está sempre na pauta. Fulana quer ter, beltrana está tentando, sicrana ainda precisa achar um pai.

Bebes-aos-borbotoesO que não é justo, Zé, é vocês não entenderem o nosso lado. Toda mulher tem um reloginho por dentro, com um ponteiro que corre vertiginoso em direção aos 35 – idade mágica, o fim da linha para ter o primeiro bebê de forma segura. Tem também a cobrança social; a ginecologista, a psicóloga, a mãe, as amigas e até o papagaio nos perguntando: “Tá, e aí, vai ter filhos ou não?”. E os sonhos, ainda existem os sonhos: temos ideias idílicas de uma familinha perfeita, marido, filhos, cachorro e uma casa no subúrbio. Nem me prolongo no instinto maternal, que a palavra “instinto” já diz tudo.

A adolescência se expandiu, a vontade/necessidade de construir uma carreira tomou nosso tempo, a incompetência para manter relações estáveis adiou nossos planos. Chegamos aos 30 (e poucos), e o tempo subitamente começou a jogar contra. Ao contrário dos meninos, não podemos mais postergar a maturidade, é agora ou nunca. Não pense, Zé, que nós estamos “loucas pra parir” agora, justo agora. O que nos falta é opção.

Um último lembrete: também não é certo, meu amigo, dizer que todas estamos assim. Tenho amigas que nunca quiseram bebês em suas vidas. Outras decidiram há pouco tempo não ter filhos, ressalva feita se o príncipe encantado fizer esta exigência. Há também quem gradativamente perceba que não é possível brigar com a biologia e o destino: se não der, paciência, que esta não vai ser a única meta não realizada na vida.

Eu, que não gosto de pressões, sejam sociais, biológicas ou existenciais, arranjei um jeito de fugir da raia. Vou ficar esquentando a cabeça com a idade? Que nada. Com tanto bebezão precisando de mãe por aí, vou mesmo é pegar pra criar.

 

Foto: Daniel Jaeger Vendruscolo/Stock.xchng

8 Responses

  • A incompetência para manter relações estáveis adiou os planos? Eu diria que boa parte por incompetência deles, os homens, que nos “obrigam” a encerrar o relacionamento mais cedo do que o previsto…

  • Nãnãnã, não concordo. Se não conseguimos manter as relações estáveis, no mínimo 50% da incompetência é nossa.

    E quando a gente faz de tudo pra dar certo? Bom, aí a incompetência (nossa) foi no escolher o cara.

  • A incompetência da escolha é certa, 100% minha. Mas no manter a relação, ainda acho que a parte que me cabe é bem menor que os 50% (hehehe).

    “Em vez de amor, uma saudade vai dizer quem tem razão” (Tom Jobim)

    Morram de saudade! Hahhaha!

  • Humm… E bota ambíguo este final, hein? As amigas que já têm filhos meio crescidinhos que se cuidem!

  • Caramba… todas amigas, mulheres, meninas e o diabo estão parindo. Também, que importa?! Optamos por ser assim: descoladas, livres, ótimas profissionais!! (ãi, será) Sabe, o conflito é cotidiano – isto é uma opção nossa ou somos umas medrosas incapazes de encarar uma transformação mulher/mãe?! ..que dilema

  • Sei lá, acho que pra mim não é medo, não. No momento, me falta paciência pra trocar a vida que amo em prol de uma maternidade, sempre desejada, sempre postergada.
    Bem de vez em quando, também bate um Machado de Assis:
    “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.”
    Haja coragem pra botar mais um serzinho nesse mundo!

  • Ah, acho que eu sou o Zé… ahah. O primeiro comentário é justo de quem não sabe escolher e julga o todo pela análise de (certas) partes. Não adianta a pessoa priorizar outras coisas na vida e chegar aos trinta e poucos querendo apressar a maternidade que é uma idéia precisa de tempo para se desenvolver e fluir, já que é uma decisão conjunta. Eu entendo, de certa forma, mas diante de mim, que sou um cara que realmente pensa em filhos e família, pega mal. Primeiro tem que se pensar em construir um relacionamento bacana antes (sou do método tradicional, desculpem-me) e isso leva tempo. A vida é feita de escolhas. Seria legal ensinarmos isso aos nossos futuros rebentos.

  • Querido, ninguém quer apressar a maternidade, se pudéssemos esticaríamos nossa “vida útil” por 300 anos. Só não nos resta muita escolha. Para algumas de nós, não é mais possível “perder tempo” com caras que têm outros objetivos na vida…

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