Éramos três

Éramos três. Correa, Eduardo e eu. Aquelas tardes de outono me provocavam a fugir do trabalho para o bar habitual e pedir, solitária, uma bem gelada. Não se passava muito até chegar Correa, que depois de cinco anos na faculdade de Arquitetura pensava em trocar de curso. O encontro era certo: todos os dias ele passava por ali, e já nem sei se era eu ou a cerveja que, silenciosamente, o convidava a se juntar a mim.

Conversávamos, ríamos e bebíamos até o anoitecer, quando então Eduardo se aproximava, puxando a cadeira. E me beijava e me contava como tinha sido cansativo o dia de trabalho, recheando de detalhes do gênero. Depois íamos até o meu JK, onde jogávamos pôquer até chegar a madrugada. Eduardo por vezes ia embora, por vezes dormia comigo, no sofá-cama. Correa por vezes ia embora, por vezes dormia no colchonete, ao nosso lado. Quando Eduardo ia, Correa nunca ficava.

Eramos-tresQuarenta e sete dias e a cena se repetia. Eduardo alternando suas lamentações; Correa conversando, rindo e bebendo até o anoitecer, sorrindo mais a cada dia. Um dia Eduardo não apareceu. ‘Preciso viajar a negócios’, foi o que disse ao telefone, repentinamente. Correa então me acompanhou. Entrou e comigo sentou. Eu mal conseguia olhar para seus olhos. Achava que ele perceberia os pensamentos que eu não conseguia evitar. Acreditava que, se eu falasse, sentiria pela minha voz o quanto estava excitada. Assistimos um filme, depois outro. Seguimos a noite inteira, e eu esperando que o mesmo estivesse acontecendo com ele. E estava. Sabíamos que nos queríamos. E que se nos tocássemos, nos rasgaríamos – arrancaríamos nossa pele caso um dia parássemos de nos tocar. Sufocamos o que sentíamos.

Às 7h da manhã ouvimos o arrastar dos homens e o atropelo dos carros. Era o dia que insistia em se fundar. Nos encostamos e, em um ímpeto, nos abraçamos. Nos abraçamos sem parar… Sem coragem de sair dali. Qualquer movimento, um rosto inclinado… Estaríamos perdidos! Foi um abraço daqueles que não se esquece. Olhando para baixo, ele me puxou para junto de seu corpo, tirando minha roupa, mordendo meus seios. Eu o apertando e segurando sua mão suada, a cintura do homem que me penetrava. Não resistimos e, ao mesmo tempo, havíamos conseguido! Não nos olhamos nos olhos em respeito ao nosso Eduardo – seu amigo, meu namorado.

Saberíamos que não desgrudaríamos se nossos olhares se cruzassem. Eu, no entanto, jamais voltei a Eduardo. Quando este retornou, no dia seguinte, no horário de sempre, eu não o via da mesma forma. E enfaticamente comuniquei que não continuaríamos, que eu não podia mais tocá-lo. Disse que estava tudo acabado. Foi quando Correa chegou e então olhei para seus olhos. Chorava, olhando para o amigo. Uma arma na mão. Já não éramos três. E se não fôssemos nós, seríamos.

 

Foto: Kiel Latham/Stock.xchng

One Response

  • Era assim que eu queria que fosse: que em todas as histórias a gente pudesse inventar o nosso próprio final.

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