Na pista

“Você dança como eu escrevo.” Essa é a frase que eu uso pra me desculpar por não dançar com você. Não posso tanto. Preferia até que não houvesse o pedido, pra que eu não tivesse que negar.

Embora você tenha o tom exato, eu não posso. Eu não gosto de ser o centro das atenções – e a festa inteira olha pra você. Além do mais, eu não sei dançar, não assim desse jeito como você dança. Perfeito.

“Eu não queria você pra dançar.” Isso é o que eu respondo, meio sem-vergonha, um tempo depois, quando você puxa assunto no bar. Você responde sorrindo, ah, o sorriso. Você entendeu.

Quero deixar claro que gosto de você. Porque eu gosto, muito. Gosto mesmo sem saber que você curte Leminski e viagens. Que faz música. Seria suficiente. Gosto sem ainda nem desconfiar que você, além de dançar e sentir, também reflete. Que tem consciência política e preocupação social. Perfeito.

“Não tenho ciúme.” É o que eu penso que vou dizer enquanto você escorrega pela pista com várias meninas diferentes. Suas mãos firmes conduzem com a destreza que as minhas agora correm no teclado. Quando está dançando, você não olha pra mim. Não olha pra ninguém, está inteiro nos passos e figuras. Não tenho ciúme porque é bonito ver você dançando.

Vejo você dançando e penso: “Eu teria dito isso tudo se você tivesse falado comigo”.

 

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