Verde musgo

Todas as quintas elas vão sempre ao mesmo bar, mas nesse dia ela sugeriu para as amigas aquele outro bar, onde os garçons não sabem o nome delas – e os frequentadores também não. Hoje ela quer flertar, como nos velhos tempos. Mesa escolhida a dedo, perto da porta, para ver quem entra e quem sai.

Até lingerie especial ela colocou, vai que rola, né?! A escolhida foi aquela em verde musgo, que combina com o tom da pele dela.

Eis que depois de algumas ótimas risadas e algumas cervejas, entra um cara, o cara. “Meu número”, ela diz. “Bem teu tipo mesmo”, afirma uma das amigas. E, melhor de tudo, ele também tem amigos: três daquele lado, três deste lado, divisão exata, perfeito!

Ela, que não é boba nem nada, começa todo o ritual do flerte, é craque nisso, gesticula como nunca, mexe no cabelo, sempre com muita classe. Até que os três resolvem olhar para o local certo: a mesa delas (na verdade ela nem viu a cara dos outros dois, só tem olhos para o “dela”!).

Sem título by helen n., on FlickrAlguns olhares trocados, ela vai ao banheiro, aquele que fica do outro lado do bar, só pra dar uma caminhada. Ele nota o movimento, eles trocam um sorriso, ela fazendo o tipo tímida. Depois de mais algumas cervejas e olhares, é a vez de ele ir ao banheiro, aquele perto da mesa dela. “Esperto o rapaz”, ela pensa. Quando ele passa ao lado da mesa, ela se vê ainda mais apaixonada. “Além de ser meu número, tem estilo o dito cujo”: ele está vestindo uma camiseta verde musgo, “destino existe”, brinca ela com as amigas. Pelo estilo, pela cara de alegre e pela quantidade de assunto lá naquela mesa, eles têm tudo a ver, as amigas concordam.

Depois de algumas horas (ou cervejas, é assim que ela conta o tempo), começa um movimento estranho na outra mesa, e os meninos de lá resolvem se juntar com as meninas de cá.

Chegam de maneira inteligente, ponto pra eles já de começo, fazem um comentário divertido, brincadeira sempre ajuda. Ela não se aguenta pra saber tudo sobre ele, mas não pode abrir o questionário, seguem conversando amenidades, todos os seis conversando civilizadamente e ela cada vez mais encantada com o conteúdo do rapaz. Olhares se trocam novamente, tudo indo muito bem, até que as perguntas comuns começam.

Quantos anos? 33 (“perfeito”). Formado em quê? Parei a faculdade no ultimo semestre (“hum”). Faculdade de quê? Biblioteconomia (“mas por que que começou mesmo?”). Morada? Com os pais (“ih”). Já morou sozinho? Nunca (“aiaiai”). Faz o que da vida? Tô desempregado faz seis meses (“tudo bem, crise mundial”). Aí ele completa: nem tô procurando, se for pra ganhar 600 reais é melhor ficar sem nada.

“Tu vive de mesada?!” Até que demorou pra ela deixar de ser gentil, pensam as amigas. Ele fica meio sem jeito, alguém conserta a história, e segue tudo, digamos assim, quase normal. Depois de tanta informação relevante, o flerte foi-se ao léu, acabou o encanto. Pagar motel? Nem pensar. Se ela ainda tivesse 20 anos, naquele tempo no qual quantidade era mais importante que qualidade, vá lá. Mas agora?

Melhor voltar pra casa, ver TV e deixar a lingerie verde musgo pra próxima.

One Response

  • Pois é, esse é o problema dos 30… a gente fica mais seletiva. Mas já parou pra pensar que os caras também ficam? E que talvez a gente não seja o sonho de consumo deles? Ó, vida.

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